Sábado, 24 de Maio de 2008

Arabescos

Visitei Marrakesh há muitos anos atrás, e é uma viagem que não esquecerei nunca. Não digo isto somente por causa de sua beleza e suas atrações que merecem sem dúvida ser lembradas. Digo isto porque estava la dia 1 de maio de 1994, e foi na varanda do bar do magnífico hotel que vi na televisão o acidente do Airton Senna. Passei vários dias arrasada como se tivesse perdido alguém de minha família. Mas, por fora, tinha que sorrir e ir em frente pois fui lá a trabalho, para um congresso, e aproveitei para fazer conhecer a cidade e seus arredores.


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Faz muito tempo...logo tenho lembranças esparsas, formando arabescos de recordações. O que marcou minha memória foram as cores do local. Marrakech é chamada a "cidade vermelha", que é a cor que predomina nas construções e que combina bem com aquela arquitetura cheia de curvas e arcos, aqueles pátios internos imensos repletos de azulejos e com as cores vivas da decoração interior e das roupas de seus habitantes.

O hotel onde ficamos seguia esta arquitetura, com os grandes arcos, e todas as peças voltadas para um pátio interno onde estava localizada a piscina. Uma das paredes era coberta por uma planta trepadeira repleta de flores. Por volta das seis horas da tarde, como se tivessem marcado encontro, os passarinhos vinham em bando, cantando, pousar sobre a trepadeira num barulho ensurdecedor. Que espetáculo maravilhoso!

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Outro arabesco de recordação é um restaurante próximo ao hotel. Nele havia rosas partout...roseiras plantadas no jardim (pois jantávamos ao ar livre), fontes jorrando cobertas de rosas, rosas nos vasos sobre as mesas, e quando partíamos todas as mulheres ganhavam uma rosa...era realmente um lugar de sonho.

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Outra boa lembrança era a "fantasia", um espetáculo realizado numa grande arena, na qual cavaleiros com suntuosos trajes árabes se "enfrentavam" numa batalha que era um verdadeiro balé orquestrado com perfeição. Porém antes do espetáculo havia o jantar ao som da música e diante das dançarinas que passavam entre as "mesas"...que na verdade não eram mesas, pois nos sentávamos no chão sobre almofadas acetinadas para degustar as especialidades locais sob uma tenda de mil e uma noites.

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Um arabesco de lembrança que também me restou desta viagem é a visita à Praça Jamaa el Fna (foto acima). E uma loucura, tem engolidores de fogo, encantadores de serpente, malabaristas, grupos musicais, e a noite toda é uma festa só. O passeio ao Jardim Majorelle (foto abaixo), com suas cores marcantes também foi um belo momento desta viagem.

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Saímos de Marrakesh e visitamos alguns lugares situados nas montanhas marroquinas. Vimos belas paisagens, comemos especialidades locais e visitamos residências trogloditas (cavadas na pedra). Interessante que vimos muita pobreza, mas não presenciamos miséria no interior do país, tudo era muito limpo e arrumadinho.

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Uma semana depois de nossa volta à França, soubemos que o hotel onde o congresso ocorreu havia sido alvo de um atentado e que várias pessoas haviam sido mortas...que loucura, pensei, como um inferno destes pode acontecer em um lugar que tem tudo para ser paradisíaco.



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Terça-feira, 20 de Maio de 2008

Cannes 2008



O grande evento daqui no momento é o Festival de Cannes, que festejou seu 60° aniversário no ano passado. Como todos os anos, os olhares do público, da mídia e da crítica estão voltados para a "Croisette", onde todos querem ver e serem vistos, afinal Brigitte Bardot, por exemplo, despontou para o mundo devido a este festival. Entre as estrelas presentes estão Clint Westwood, Angelina Jolie, Cate Blanchett, Harrison Ford, Penelope Cruz, Scarlett Jannson, Natalie Portman, Catherine Deneuve, Steven Spielberg, George Lucas..

Mas apesar da "glamourização" do festival, com a mítica subida da escada e do desfile sobre o tapete vermelho, se trata mesmo é de um festival de cinema. E neste ano há 22 filmes concorrendo (lista completa aqui), sendo que ele foi aberto com um filme brasileiro chamado "Blindness". O júri que terá a difícil tarefa de escolher os melhores é presidido por Sean Penn e conta entre outros com Natalie Portman (Leon, Star Wars), Alfonso Cuaron (realizador de Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban) e Sergio Castellito (Le Grand Bleu).

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Mas participar e/ou vencer o festival de Cannes é uma garantia de sucesso para um filme? Nem sempre. Vejamos alguns casos. Sem dúvida, o maior sucesso de bilheteria entre os que receberam a "Palma de Ouro" foi o filme "Apocalipse Now" de Francis Ford Coppola, uma violenta crítica à guerra do Vietnam. Também nesta linha de crítica às guerras, MASH também foi bem recebido pelo público. Um outro grande sucesso foi "Um Homem, uma Mulher" com Anouk Aimée e Jean-Louis Trintignant, afinal quem não se lembra da famosa trilha sonora "chabadabada"? Ou a "Lição de Piano". No entanto, alguns fracassos retumbantes de bilheteria aconteceram entre os vencedores, como nos casos de Underground (1995), "A Eternidade e um Dia" e "O Homem de Ferro"(1981).

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Os escândalos de Cannes também são célebres. "La Dolce Vita" de Federico Fellini foi execrado pela Igreja Católica e vaiado pelo público em Cannes, no entanto a cena na qual Anita Ekberg se banha nua na "Fontana de Trevi" se tornou uma das cenas míticas do cinema. Um outro aconteceu em pleno maio de 1968 quando François Truffaut e Jean-Luc Godard se manifestam contra o poder vigente e o festival acabou por ser anulado. E o caso de Isabelle Adjani, que foi boicotada pelos jornalistas devido a seus ares de estrela (1983)? Quando ela pisou no tapete vermelho eles simplesmente pousaram suas câmeras no chão e viraram as costas. E a passagem de Madonna, vestida com um modelo "leve" de Jean-Paul Gaultier que causou o maior auê em 1991? Merece também ser citado o caso do polêmico "Farenheit 9/11" em 2004, que criticava a política de George Bush em relação à guerra do Iraque.

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E o Brasil em Cannes? Não podemos deixar de citar o grande clássico "Orfeu Negro", obra-prima de Marcel Camus que venceu em 1959, baseado na peça "Orfeu da Conceição" de Vinicius de Morais, tendo como trilha sonora a inesquecível "Manhã de Carnaval", interpretada por Agostinho dos Santos. Apesar da música e do elenco brasileiros, o prêmio foi para a França, pois o realizador era francês. O único filme brasileiro a ter recebido a "Palma de Ouro" foi "O Pagador de Promessas" de Anselmo Duarte em 1962. Depois disto, Glauber Rocha foi premiado como melhor diretor em 1969 por "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro”, assim como Fernanda Torres, melhor atriz em 1986 por “Eu Sei que Vou Te Amar”, de Arnaldo Jabor.

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Este ano além de "Blindness" de Fernando Meirelles, baseado no livro de José Saramago "Ensaio sobre a Cegueira", que abriu o festival temos também Walter Salles, que concorre com “Linha de Passe”, dirigido por Daniela Thomas. Vamos torcer, não é mesmo?




Update (20/05/2008)

A Sonia, a quem agradecemos, citou nos comentários uma outra participação brasileira : "vi ontem no programa Manhattan Connection (GNT) que o brasileiro radicado em Nova York, Antônio Campos, que é filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes, está concorrendo com o filme Afterschool, exibido neste domingo na mostra Un Certain Regard. O filme descreve o universo inquietante de uma escola preparatória americana. Maiores informações, Aqui".

Vejam outros filmes brasileiros que serão apresentados nas várias mostras paralelas ao concurso principal de Cannes (fonte aqui):

"A torcida pelo Brasil neste ano continua na mostra paralela “Um Certo Olhar” (“A Certain Regard”), dedicada a filmes de diretores estreantes. É o caso de "A Festa da Menina Morta", estréia na direção do ator Matheus Nachtergaele, e "Afterschool", primeiro longa do brasileiro-americano Antonio Campos. O documentário “O Mistério do Samba”, por sua vez, que conta com a participação de Marisa Monte para narrar o cotidiano da Velha Guarda da Portela, encerrará a mostra “Cinéma de la Plage”.

Com presença cativa em Cannes, os curtas-metragens brasileiros terão quatro representantes nesta edição. "Areia", de Caetano Gotardo, e "A espera", de Fernanda Teixeira, estão na lista de filmes da 47ª Semana Internacional da Crítica, que será realizada entre 15 e 23 de maio, e que premiou no ano passado “Um Ramo”, dos paulistas Juliana Rojas e Marco Dutra. Já o curta "Muro", do pernambucano Tião, foi selecionado para a mostra Quinzena dos Realizadores. O quarto e último curta brasileiro é "O som e o resto", de André Lavaquial e Rodrigo Rueda Terrazas, que estará na mostra Cinéfondation."



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